Um olhar crítico sobre o curta animado Me!Me!Me!

youreinforaride

Cerca de um ano atras, tivemos uma entrevista bastante perturbadora envolvendo Hayao Miyazaki, criador de grandes clássicos dos animês como, A Viagem de Chihiro, Meu Amigo Totoro e o Castelo Animado. Na entrevista, enquanto desenha uma garotinha, ele dá sua opinião sobre o estado atual da indústria dos animês.

Veja, quer você possa desenhar assim ou não, ser capaz de pensar nesse tipo de design depende de você poder dizer a si mesmo ‘Ah, sim, garotas assim existem na vida real’. Se você não observa pessoas reais, você não pode fazer coisas assim, pois você nunca as viu. Algumas pessoas passam suas vidas interessadas apenas em si mesmas. Quase toda a animação japonesa é produzida sem nenhuma base da observação de pessoas de verdade. É produzida por humanos que não suportam olhar para outros humanos. E é por isso que a indústria está cheia de otakus

É claro que suas palavras não foram bem recebidas (Meça suas palavras Miyazaki!?). Afinal, ele criticou uma legião de fãs que até então não se viam nas condições citadas por ele. Lembrando que o termo otaku pra gente é apenas destinado a quem curti animês, mangás, cultura japonesa e derivados disso, mas no Japão o termo engloba muito mais que isso, seria algo próximo do nerd que usamos aqui.

Entretanto, Miyazaki foi apenas o primeiro a criticar os rumos da industria, logo atrás dele estava Hideaki Anno, simplesmente o diretor de Neon Genesis Evangelion e logo em seguida Nobuo Kawakami, que por sua vez trouxe seu discurso em forma de um curta animado que foi intitulado como Me!Me!Me! e viralizou internet a dentro.

Muita gente assistiu ao curta e compartilhou aos quatro ventos, levantando a bandeira de que aquele era o melhor curta fanservice do mundo, pedindo por mais e babando de tanto apertar repeat no player. Pois bem, Miyazaki, Kawakami e Anno, estavam falando sobre essas pessoas em seus discursos.

Segundo palavras do Nobuo Kawakami (produtor do curta), o vídeo é uma “contribuição para o desenvolvimento e futuro do animê japonês. Acredito que todas as inovações vem de jovens e antigos animadores. Mas não podemos dar continuidade em nada sem oportunidade de reestruturação”.

A partir disto e do histórico das pessoas envolvidas na produção de Me!Me!Me!, podemos chegar a conclusão de que não é apenas um fanservice, tem algo mais profundo mostrado nesses 7 minutos de animação.

tumblr_nfdgcbbBi91r3rdh2o1_500
Personagens sendo transformados ao fanservice

Em um breve resumo, Me!Me!Me! fala sobre um garoto, pertencente a descrição de otaku referenciada por Miyazaki, que foi alimentado por uma industria baseada em Ecchi, Fanservice, Hentais e produções que não inseriam nada de útil a cultura. Esse mesmo garoto como resposta, iniciou um ciclo onde ele era alimentado e ao mesmo tempo alimentava a indústria consumindo cada vez.
Todas os símbolos estão inseridas na personagem que chamaremos de Pink (peitos, bundas, gemidos) e essa personagem representa a Indústria consumindo o garoto.

Ao se dar conta de que está inserido nesse universo mais do que deveria, se afastando até mesmo do mundo real, o garoto tenta sair, mas então temos a cena mais impactante do curta, quando a Indústria Pink, regurgita todo o seu conteúdo na boca dele, fazendo com que continue consumindo.

1416883261028

Todos sabemos que não existe possibilidade alguma de generalizar, mas pegando uma parcela do público otaku mundial, analisando as produções que temos hoje na indústria de animês e colocando lado a lado com o surgimento dessa indústria (lembrando que mangás surgiram para reerguer o povo japonês pós guerra). Será mesmo que Hayao Miyazaki, Hideaki Anno e Nobuo Kawakami (sem contar os que ainda estão calados) estão 100% errados nas suas críticas?

  • Alibaba

    Uma ótima analise! A primeira vez que assisti ao clipe, já julguei por ter peitos e bundas até não querer mais. Depois que assisti legendado comecei a entender do que se tratava. O garoto da animação é um retrato do que os jovens no Japão veem se tornando. “Entram” no mundo virtual, e consequentemente acabam se fechando para o mundo real. Isso quando não são pessoas depressivas que entram nesse mundo como válvula de escape, e se desligam completamente da realidade. Temos muitos casos aí de pessoas com sua “waifus”, e casos mais bizarros que os caras literalmente se casam com suas amadas 2D.