Unepic – Como não ser épico pode ser Incrível!

Jogar um blockbuster como Call of Duty, Skyrim, Max Payne é muito gratificante, e traz aquela sensação bacana de “ser épico”: matar dragões com uma música imponente ao fundo, pular em câmera lenta por cima de uma mesa e acertar 15 bandidos enquanto faz isso, tudo isso dá um sentimento muito legal, e em uma primeira análise, talvez seja até o motivo pelo qual jogamos jogos.

Mas nos últimos dias, um jogo me surpreendeu, justamente por ser totalmente anti-épico, e mesmo assim, extremamente viciante! Estou falando do Unepic, ou, em português, algo como “Não Épico”.

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Unepic é um jogo indie, criado por um maluco espanhol, chamado Francisco Meneses, que trabalhou praticamente sozinho por dois anos programando o jogo, embora com a ajuda de alguns “colaboradores” no mundo todo (principalmente design e traduções para outras linguagens – falando nisso, um ponto positivo: o jogo já vem traduzido para português… de Portugal, mas português. Eu particularmente preferi jogar em inglês, até por entender melhor as piadas e algumas expressões, gírias e piadas, que muitas vezes em português de portugal não ficam claras, mas isso possibilita que pessoas que não manjam nada de inglês possam entender a história.

O jogo em si é um “metroidvania” muito bem feito. Para quem não saca, o metroidvania é um estilo que ficou famoso a partir do Metroid, do NES, e que foi seguido posteriormente pela série Castlevania, principalmente no (incrível, por sinal) Symphony of the Night, do PSX. Basicamente é um jogo de plataforma 2D, focado em exploração, e que apresenta diferentes ambientes (ou “setores”) em um mapa, que são liberados a partir de determinadas ações que são feitas em outras partes do mapa (conseguir uma chave que abre uma porta, ou adquirir um pulo mais alto que te permita alcançar uma plataforma antes inacessível, por exemplo), o que dá ao jogo uma certa linearidade, apesar da liberdade aparente.

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Nisso, o jogo é extremamente competente. A jogabilidade é muito boa, e usa bem o teclado do computador para dar os comandos básicos, e tudo é configurável. Algo que parece ter sido inspirado dos MMORPG’s, e que cai bem neste caso, são as barras de atalho, onde você pode customizar duas barras para acessar rapidamente armas, poções e magias. Uma é acessada com os números de 0 a 9, e a outra é acessada pelos mesmos números, juntamente com a tecla shift. Parece pouco funcional no início, principalmente para usar as magias, mas conforme você vai se acostumando, começa a funcionar muito bem. Não tem possibilidade de se usar um joystick, e senti falta disso.

Parênteses: vocês já pararam pra pensar na etimologia da palavra “joystick”? Claro que ela se refere aos antigos controles, tipo os do Atari 2600 onde havia uma “haste” que controlava o jogo, mas você há de convir que chamar isso de “Bastão da Alegria” (em tradução literal e totalmente parcial ao meu interesse de fazer essa piada idiota) é no mínimo, esquisito.

Existe também o desenvolvimento de personagem no melhor estilo RPG clássico. Cada inimigo morto dá pontos de experiência, e com isso você vai subindo níveis, que lhe dão pontos para distribuir em algumas características, que são basicamente melhoramentos para cada um dos tipos de armas, e com cada um dos elementos de magia.

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Graficamente, é um jogo bonito, mas achei os gráficos um pouco datados. Além disso, pelo próprio contexto da história, tudo é muito escuro, e isso me incomodou depois de um tempo. Talvez se tivessem mesclado ambientes escuros com ambientes mais claros, nas diferentes áreas do mapa do jogo, seria mais agradável.

Já a história, é o melhor e o pior do jogo, ao mesmo tempo.

É uma história bem simples: Daniel, o protagonista, estava na casa de uns amigos jogando RPG, e aparentemente de saco cheio daquilo tudo. Depois de algumas cervejas, ele interrompe o jogo para ir ao banheiro, e ao entrar lá, não consegue achar o interruptor para acender a luz. Então ele acende o seu isqueiro, e voilá, ele está em um castelo medieval. Aos poucos ele percebe que está dentro de um jogo de RPG, e começa a tentar descobrir como sair de lá, até que encontra um espectro, que domina o seu corpo, mas como o Daniel é totalmente desprovido de fé, o espectro não consegue dominar as suas ações, ficando preso no corpo do protagonista. A partir disso, o espectro atua como a consciência do personagem, e também como um guia daquele ambiente, dando algumas dicas. A questão é que se Daniel morrer, o espectro ficará livre do seu corpo, então geralmente as dicas que ele dá devem ser seguidas com cuidado (isso será importante para você sobreviver a uma das primeiras salas do jogo, fikdik).

Daniel é um tremendo babaca, e isso acaba gerando piadas hilárias, que é o que torna a história bacana: uma situação memorável é o momento em que o espectro tenta achar uma forma de sair do corpo do protagonista, e Daniel sugere tentar “expeli-lo” por um cano de descarga, localizado estrategicamente em sua parte traseira, já que por ser um gás, talvez pudesse sair junto com outros gases.

As referências a outros ícones da cultura nerd também trazem bons momentos, como por exemplo, o momento em que Daniel se aproxima de uma figura importante no castelo, que se apresenta ao modelo medieval – “Sou fulano, filho de beltrano, senhor de não sei o que”. Daniel então pensa consigo: “Preciso dizer algo que impressione”; e manda: “Sou Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro do trono de Gondor”.

Ao mesmo tempo, depois da metade do jogo, as piadas começam a ficar mais previsíveis, e mais sem graça. A história começa a perder um pouco do sentido, e eu acabei pulando alguns diálogos em algumas partes. A boa jogabilidade, no entanto, te segura mesmo quando a história fica ruim.

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Em suma, Unepic é um jogo muito bom, apesar dos pesares, e os pontos negativos dele podem ser relevados, considerando que um maluco só programou isso tudo, e tocou o jogo quase sozinho. Imagino que essa queda na história deve ter acontecido quando ele provavelmente ficou de saco cheio de fazer o jogo e quase desistiu (acontece com todo programador – Já assistiu Indie Game: The Movie? Recomendo. Talvez eu faça um post sobre ele depois…).

O jogo pode ser comprado no site oficial: o www.unepicgame.com, onde você pode inclusive baixar um demo que te permite explorar duas áreas do castelo (dá umas boas 4 horas de jogo, vale a pena) e depois de comprar, o jogo libera que você continue de onde parou.

O jogo não exige um supercomputador para rodar, então qualquer netbook com placa onboard roda ele fácil, fácil. A forma de pagamento é pelo Paypal, e tem preços de 6,50 euros até 19,50, com alguns benefícios a mais (itens exclusivos, etc). Sinceramente, o pacote mais simples, de 6,50 euros, convertido deve ficar em uns R$20. Vinte pila por esse jogo, vale DEMAIS!

Foi lançado apenas para PC, mas segundo nota no site do jogo, a Nintendo aprovou a publicação dele para o WiiU, será lançado aparentemente para download via Wiiware por volta de Maio de 2013.

Números pra quem gosta de números:

Ah, que saudade da SuperGamePower, da Gamers, que tinham essas avaliações dos jogos. Meu sonho de infância sempre foi fazer uma, então resolvi que vou realizar isso agora.

Resumo: Bom jogo, divertido, simples e bem programado. Vale DEMAIS os 20 reais.

  • Rodrigo

    Muito bom review, valeu!